24 de agosto de 2026
Falar em Universo Ficcional já se tornou lugar comum na cultura pop, em grande medida graças ao MCU, e mesmo a Marvel já está há algum tempo colocando seus pés no conceito de Multiverso, para poder seguir produzindo seus enlatados sem precisar seguir estritamente a todas as regras que eles mesmos estabeleceram anteriormente. Eu entendo, perfeitamente, pois meu Universo Ficcional há algum tempo também já se tornou complexo demais para que apenas uma cronologia pudesse encaixar todas as formas de história que não param de brotar de todos os cantos.
A Existência, que é como chamo a totalidade da minha ficção, apresenta algumas características que fundamental tanto sua, com o perdão da limitação, existência, quanto também são guias para toda a forma de expansão que venha acontecer dentro do seu escopo. Primariamente, a Existência é uma narrativa fractal, ou seja, que gera padrões e repetições que, mesmo quando se estendem em desenhos complexos longos, em algum momento retornam ao exato mesmo tipo de forma que já apareceu anteriormente. As consequências mais ordinárias e pragmáticas disso é que posso reutilizar personagens em diversas histórias diferentes e atribuir isso à natureza deste universo, onde as coisas eventualmente se repetem. Mas, essa característica também gera padrões mais sutis, como os ciclos entre Eras/Mundos de pura magia e Eras/Mundos de pura ausência de magia.
Dá para dizer que esta natureza fractal, quase matemática da Existência, é um dos cernes desta ficção, mas também existem alguns outros pontos onde acontecem as ‘amarras’ centrais de muitos enredos que parecem separados, e é sobre um desses pontos de amarra que gostaria de lançar maior pensamentos neste texto.
“Herois de Aluguel LTDA” é uma história bastante direta, sobre um grupo de super-herois que se junta em uma firma registrada no Brasil para salvar o dia em troca de seu próprio sustento. Claro que questionamentos sobre a diferença deles para simples mercenários faz parte dos questionamentos mais dramáticos do enredo, e a trama não se priva de refletir sobre o papel de pessoas anônimas com super-capacidades diante de um mundo onde a estrutura social vertical extrema é o que detém o verdadeiro poder econômico e político do mundo.
Nesta história, os super-heróis são um fenômeno muito recente, de poucos anos, e que por isso ainda está causando efeitos não entendidos sobre a sociedade. Antes de um marco de poucos anos, não existia qualquer registro de pessoas com poderes e isso não é um ponto que é colocada muita luz, sobre haver ou não alguma motivação para este fenômeno ter tido início. Cabe a outra história, muito mais crua, mas fundamental, esta explicação.
Não existe sequer um título oficial para a trama que chamo apenas de “Magia”. Esta é uma história bastante distinta dos Herois de Aluguel, pois se passa em um mundo contemporâneo (fim da primeira década do século XXI) onde inúmeras sociedades de magos atuam secretamente manipulando o mundo comum, mas sempre tomando todo o cuidado para não revelar sua existência. Nesta história, uma jovem comum chamada Sofia, estudante universitária de arte, é sequestrada em meio a uma disputa entre magos e se torna refém de um coven que começa a lhe ensinar sobre as artes mágicas ocultas e lhe explica que ela tem um grande potencial mágico que é cobiçado por jovens de todo o mundo.
A trama é uma mistura de “oh, estou aprendendo a ser maga” com “os mistérios do mundo dos magos são mesmo misteriosos”, para falar de uma maneira bem simplória. Acontece que, mesmo tendo uma dinâmica social aparentemente bastante distinta, a história dessa jovem com a magia está diretamente relacionada com a trama dos Heróis de Aluguel.
Na Existência tudo relacionado à magia pode ser atribuído a um tipo de matéria que não existe no mundo real, chamado de Ada. A manifestação de quaisquer efeitos que possam ser percebidos como mágicos ou sobrenaturais são possíveis diretamente pela presença do Ada na atmosfera e também em todas as partes do corpo do usuário de magia. Existe um órgão físico no corpo de todas as criaturas capazes de usar magia que atua como o centro dessa manipulação mágica.
A maneira como os seres humanos se relacionam com o Ada segue alguns princípios inspirados pela Evolução. Ou seja, o Ada, que é a princípio abundante em todo o lugar, no caso de tornar-se escasso ou inexistente, pode gerar efeitos colaterais danosos ou mesmo fatais para os humanos que tenham seus corpos adaptados à existência do Ada. Porém, a ausência prolongada de gerações desta partícula leva ao atrofiamento da capacidade de percepção ou interação com o Ada. Ou seja, a magia “desaparece”.
Quando o Ada volta a ser presente no ambiente, podem acontecer algumas situações distintas: entre essas situações incluem o Ada tornar-se nocivo e fatal ao ser humano (premissa por trás do livro Other World, apesar de não ser explicitado ali que a partícula que torna a atmosfera do Outro Mundo fatal às pessoas é o Ada), ou pode simplesmente ser ignorado, até que, após gerações, comece a ocorrer o oposto do momento de escassez e alguns indivíduos passem a conseguir interagir com o Ada, o que vulgarmente pode se dizer que é a “magia passar a existir”.
Na história que estávamos conversando antes, Sofia é uma pessoa com uma capacidade de uso do Ada muito maior do que os poucos usuários existentes em seu mundo. Isso é algo cobiçado e, após um longo desenrolar dramático onde Sofia aprende mais sobre a magia e suas capacidades, ela toma a decisão de abrir o mundo para a magia. Não diretamente, com um anúncio na televisão, mas tornando o Ada mais abundante e, dentro de suas capacidades aumentadas, mas não infinitas, dando uma maior probabilidade das pessoas desenvolverem seus centros de manipulação do Ada naquele período.
E é isso que leva ao aparecimento de habilidades especiais em algumas pessoas. Por terem um entendimento e capacidade muito pequena, esse uso do Ada é condicional e específico. Para uma pessoa é super-velocidade, para outra é super-força e para o líder dos Herois de Aluguel é super-inteligência. Dali a uma geração, porém, essas capacidades se multiplicam, em uma escalada que cria uma sociedade altamente avançada tecnologicamente e também dotada de magia crescente, algo que certamente é um ótimo terreno para explorar futuramente em alguma história.
Mas então, vem a natureza fractal novamente, pois este desenvolvimento mais elevado e quase otimista para um século 21 onde a magia passa a existir é uma de duas possibilidades apenas. Para que haja espaço para lidar tanto com esta quase-utopia tecno-mágica e ainda ter outras tramas contemporâneas absolutamente realistas, o marco divisor é exatamente o sucesso ou não de Sofia e seu objetivo de democratizar a magia no mundo. Enquanto a versão bem-sucedida parece ser a melhor em alguns aspectos, do outro lado dessa barreira do teste lógico está, por exemplo, o Bouken-Ni, uma das histórias sobre cotidiano comum que mais gosto de trabalhar, que entra na vida comum do otaku brasileiro médio, suas amizades e seus conflitos.
A beleza de um Universo Ficcional Múltiplo está exatamente em saber ver qualidades em todos os lados separados desta grande roda infinita que é a Existência. Se um multiverso existir onde apenas uma das possibilidades parecer melhor, então não há motivos para se criar tal distinção a não ser a vontade de fugir de contradições lógicas sem fazer muito esforço. Uma história de “imagine se fulano não tivesse morrido” onde a realidade onde esse personagem morreu é apenas miserável e sem objetivo não tem motivo de ser a não ser algum tipo de fetiche por sofrimento ficcional, algo que não é desconhecido infelizmente.
No fim este texto foi um emaranhado de ideias como se poderia imaginar que seria quando se trata de algo tão profundamente abstrato e irrelevante quanto um universo ficcional particular.
12 de janeiro de 2026
Foi há vinte e quatro anos. Eu era apenas uma criança ainda mais impressionável do que sou uma pessoa adulta impressionável. Jogar The Legend of Zelda Ocarina of Time e A Link to the Past haviam me feito perceber um universo de possibilidades de histórias que eu não tinha percebido até então. Não havia assistido a estreia grandiosa no mês anterior do primeiro filme de O Senhor dos Anéis, sequer havia ouvido falar de sagas de fantasia infanto-juvenis que entrariam na moda nos anos seguintes. Meu mundo de histórias era o que chegava pela televisão, nos desenhos e novelas, e, mais recentemente, em jogos de videogame que tinham uma trama mais complexa do que "vá da esquerda para a direita até chegar no final da fase". Zelda havia se tornado uma obsessão completa no ano anterior, 2001, e ter ganhado um cartucho de A Link do the Past no natal anterior, algumas semanas antes daquele dia doze de janeiro, tinha sido um passo fatídico.
Eu disse em uma certa manhã, alguns dias antes, na mesa do meu café da manhã, que gostaria de criar um jogo igual Zelda. Meu pai, que sempre foi o primeiro a destruir todos os meus sonhos infantis havia feito questão de dizer que era impossível, que eu jamais conseguiria nem se fizesse isso por dez anos. A raiva que senti era do tamanho de quem mal havia vivido mais do que dez anos até então, ou seja, era do tamanho do universo. Mas, na minha rebeldia também infinita em um mundo de nunca reagir, eu pensei silenciosamente que ele estava muito errado e eu ia sim criar um mundo que nem o de Zelda.
E foi assim, que no dia doze de janeiro de 2002, munida de uma única folha de papel almaço (vide google caso não saiba do que se trata essa relíquia) e um lápis eu comecei a criar um mundo. Naquela manhã eu escrevi o prólogo de uma história, uma história que comecei a escrever em 2002, mas que ainda não acabou de ser escrita em 2026, mais de vinte e quatro anos depois. Uma história que provavelmente não irei concluir mesmo se alcançar os trezentos anos de idade de alguma forma.
Infinits.
Bom, na verdade naquele dia se chamava "A Lenda de Éluri" pois quando tinha apenas doze anos tinha ainda menos criatividade para nomes do que hoje com trinta e seis.
Os três primeiros personagens dessa história surgiram de imediato: O menino-herói, Fredan (não Fred, não Freedam, Fredan, uma corruptela de Freedan de outro jogos de videogame, Illusion of Gaia); O guardião que seria seu guia, Naily (não Navi, veja que criativo); e a princesa que iria guiar o menino-héroi: Éluri. A origem deste terceiro nome é tão ridícula quanto os outros, mas fica como easteregg não declarado mesmo sendo óbvio. A estrutura da história nem vale a pena mencionar, pois podia se dizer que era uma versão de Zelda com nomes trocados, nada a mais, nada a menos. Com direito a três continentes e três deuses, ao invés de três deusas (uau!)
A questão é que, a partir dali, daquele dia, tudo que veio a seguir foi por um rumo caótico e torto como poderia se esperar, mas inquestionavelmente único. As influências vieram, de O Senhor dos Anéis, de sagas infanto-juvenis, vieram países, novos co-protagonistas como o príncipe Peter Aika, que era do país gelado do continente Wolf, e teria uma queda irritante e até inconveniente pela princesa Éluri (eu logo me tornei fã de animes como Tenchi Muyo, veja bem). Dali a três anos, com várias histórias escritas em pedacinhos incompletos e muitos personagens novos, Mazaki teve coragem o suficiente para falar sobre sua grande criação com colegas de escola. Só para então perceber que ninguém realmente se importa se você cria uma história sem pé nem cabeça pra se divertir, no máximo vão rir da sua cara se você inocentemente der o nome de Forever para algum lugar (o humor juvenil é sempre um dessabor uh).
Quanto mais o tempo passou, mais minha visão de mundo foi amadurecendo, e com isso também minha vontade e necessidade de mudar o que tinha pensado antes naquele mundo que agora já tinha diversos mundos dentro de si, além de histórias de surgimento do universo e finais também. Reformas, novas versões. Adaptações para valores mais próximos dos meus.
Em pensar que levou mais de oito anos para que eu enfim admitisse uma personagem lésbica. Olhando em retrospecto, é a parte que me faz rir.
Forever virou Etern, e quando as piadas com Eternia e He-Man cansaram, enfim
Therimah. Mapas mundi cada vez mais detalhados e com mais países, saindo de três localidades simplórias para quase 90 países com influências culturais vindas de praticamente todas as partes do mundo real para lá.
Oito anos se tornaram quinze, então vinte. E agora,
vinte e quatro anos. Éluri Etern hoje é muito mais protagonista do que o tal Fredan Magno, mas sinceramente a história deles é apenas uma entre tantas em diversos países e tempos. Tudo ainda registrado em pequenos pedaços soltos, ilustrações, livros não publicados, mapas e até alguns quadrinhos. E, enquanto termino de criar uma nova história neste mundo de Therimah e percebo esta data redonda, eu me faço a pergunta mais importante de todas:
Por que eu faço tudo isso? Por que criar um universo ficcional que ninguém se importa? Por que o esforço de falar sobre isso em um espaço online público depois de tanto tempo? É saudade das piadas com Forever e Eternia?
A resposta mais simples e mais verdadeira é também a mais descabida: porque eu preciso disso para existir. A minha existência, por vinte e quatro anos, esteve em parte entrelaçada com essa ficção infinita (hah, Infinits). Meu mundo interior é refletido nesse mundo de faz de conta e olhar para Therimah é também ver o reflexo do que eu sou de volta para mim de maneira mais clara do que um espelho pode mostrar.
Vinte e quatro anos.
Quantos mais?
Costumo fazer promessas todo janeiro, de que irei "colocar Infinits no mundo" só para então em fevereiro lembrar que essa afirmação não faz sentido nenhum, já que não sou capaz de gerar terra e países a partir do nada no mundo real, a não ser que eu faça o maior mapa de minecraft de todos os tempos, não tem como isso acontecer.
Ou tem?
Por Éluri, Fredan, Ruki e tantos outros desses humanos de mentirinha, eu continuo prometendo que este ano, este ano, vou colocar Infinits no mundo. Nem que seja com um texto no dia doze de janeiro de dois mil e vinte e seis.