INFINITS
Um projeto de Worldbuilding
Quanto tempo é 24 anos?
12 de janeiro de 2026
Foi há vinte e quatro anos. Eu era apenas uma criança ainda mais impressionável do que sou uma pessoa adulta impressionável. Jogar The Legend of Zelda Ocarina of Time e A Link to the Past haviam me feito perceber um universo de possibilidades de histórias que eu não tinha percebido até então. Não havia assistido a estreia grandiosa no mês anterior do primeiro filme de O Senhor dos Anéis, sequer havia ouvido falar de sagas de fantasia infanto-juvenis que entrariam na moda nos anos seguintes. Meu mundo de histórias era o que chegava pela televisão, nos desenhos e novelas, e, mais recentemente, em jogos de videogame que tinham uma trama mais complexa do que "vá da esquerda para a direita até chegar no final da fase". Zelda havia se tornado uma obsessão completa no ano anterior, 2001, e ter ganhado um cartucho de A Link do the Past no natal anterior, algumas semanas antes daquele dia doze de janeiro, tinha sido um passo fatídico.
Eu disse em uma certa manhã, alguns dias antes, na mesa do meu café da manhã, que gostaria de criar um jogo igual Zelda. Meu pai, que sempre foi o primeiro a destruir todos os meus sonhos infantis havia feito questão de dizer que era impossível, que eu jamais conseguiria nem se fizesse isso por dez anos. A raiva que senti era do tamanho de quem mal havia vivido mais do que dez anos até então, ou seja, era do tamanho do universo. Mas, na minha rebeldia também infinita em um mundo de nunca reagir, eu pensei silenciosamente que ele estava muito errado e eu ia sim criar um mundo que nem o de Zelda.
E foi assim, que no dia doze de janeiro de 2002, munida de uma única folha de papel almaço (vide google caso não saiba do que se trata essa relíquia) e um lápis eu comecei a criar um mundo. Naquela manhã eu escrevi o prólogo de uma história, uma história que comecei a escrever em 2002, mas que ainda não acabou de ser escrita em 2026, mais de vinte e quatro anos depois. Uma história que provavelmente não irei concluir mesmo se alcançar os trezentos anos de idade de alguma forma.
Infinits.
Bom, na verdade naquele dia se chamava "A Lenda de Éluri" pois quando tinha apenas doze anos tinha ainda menos criatividade para nomes do que hoje com trinta e seis.
Os três primeiros personagens dessa história surgiram de imediato: O menino-herói, Fredan (não Fred, não Freedam, Fredan, uma corruptela de Freedan de outro jogos de videogame, Illusion of Gaia); O guardião que seria seu guia, Naily (não Navi, veja que criativo); e a princesa que iria guiar o menino-héroi: Éluri. A origem deste terceiro nome é tão ridícula quanto os outros, mas fica como easteregg não declarado mesmo sendo óbvio. A estrutura da história nem vale a pena mencionar, pois podia se dizer que era uma versão de Zelda com nomes trocados, nada a mais, nada a menos. Com direito a três continentes e três deuses, ao invés de três deusas (uau!)
A questão é que, a partir dali, daquele dia, tudo que veio a seguir foi por um rumo caótico e torto como poderia se esperar, mas inquestionavelmente único. As influências vieram, de O Senhor dos Anéis, de sagas infanto-juvenis, vieram países, novos co-protagonistas como o príncipe Peter Aika, que era do país gelado do continente Wolf, e teria uma queda irritante e até inconveniente pela princesa Éluri (eu logo me tornei fã de animes como Tenchi Muyo, veja bem). Dali a três anos, com várias histórias escritas em pedacinhos incompletos e muitos personagens novos, Mazaki teve coragem o suficiente para falar sobre sua grande criação com colegas de escola. Só para então perceber que ninguém realmente se importa se você cria uma história sem pé nem cabeça pra se divertir, no máximo vão rir da sua cara se você inocentemente der o nome de Forever para algum lugar (o humor juvenil é sempre um dessabor uh).
Quanto mais o tempo passou, mais minha visão de mundo foi amadurecendo, e com isso também minha vontade e necessidade de mudar o que tinha pensado antes naquele mundo que agora já tinha diversos mundos dentro de si, além de histórias de surgimento do universo e finais também. Reformas, novas versões. Adaptações para valores mais próximos dos meus.
Em pensar que levou mais de oito anos para que eu enfim admitisse uma personagem lésbica. Olhando em retrospecto, é a parte que me faz rir.
Forever virou Etern, e quando as piadas com Eternia e He-Man cansaram, enfim Therimah. Mapas mundi cada vez mais detalhados e com mais países, saindo de três localidades simplórias para quase 90 países com influências culturais vindas de praticamente todas as partes do mundo real para lá.
Oito anos se tornaram quinze, então vinte. E agora, vinte e quatro anos. Éluri Etern hoje é muito mais protagonista do que o tal Fredan Magno, mas sinceramente a história deles é apenas uma entre tantas em diversos países e tempos. Tudo ainda registrado em pequenos pedaços soltos, ilustrações, livros não publicados, mapas e até alguns quadrinhos. E, enquanto termino de criar uma nova história neste mundo de Therimah e percebo esta data redonda, eu me faço a pergunta mais importante de todas:
Por que eu faço tudo isso? Por que criar um universo ficcional que ninguém se importa? Por que o esforço de falar sobre isso em um espaço online público depois de tanto tempo? É saudade das piadas com Forever e Eternia?
A resposta mais simples e mais verdadeira é também a mais descabida: porque eu preciso disso para existir. A minha existência, por vinte e quatro anos, esteve em parte entrelaçada com essa ficção infinita (hah, Infinits). Meu mundo interior é refletido nesse mundo de faz de conta e olhar para Therimah é também ver o reflexo do que eu sou de volta para mim de maneira mais clara do que um espelho pode mostrar.
Vinte e quatro anos.
Quantos mais?
Costumo fazer promessas todo janeiro, de que irei "colocar Infinits no mundo" só para então em fevereiro lembrar que essa afirmação não faz sentido nenhum, já que não sou capaz de gerar terra e países a partir do nada no mundo real, a não ser que eu faça o maior mapa de minecraft de todos os tempos, não tem como isso acontecer.
Ou tem?
Por Éluri, Fredan, Ruki e tantos outros desses humanos de mentirinha, eu continuo prometendo que este ano, este ano, vou colocar Infinits no mundo. Nem que seja com um texto no dia doze de janeiro de dois mil e vinte e seis.
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